12 julho, 2016

Aurora boreal


Meus olhos cegos 
puseram-me desde cedo 
a tatear nas paredes desse abismo, 
a inscrição outrora feita 
por irrequietas ninfas, 
mantidas em constante espreita 
de um amor que, um dia, 
ousaram a semente semear.

A luz tardia que em maio 
aos meus olhos foi cedida 
precedia a sua: 
a precoce e luminosa aurora boreal 
que diagrama em meu céu 
um único ponto cardeal, 
indicando-me o rumo incerto 
dessa busca indefinida.

Trilho a direção 
que dita a bússola dos meus poros; 
o norte magnético 
em tua presença personificado, 
arrastando meus grilhões 
sobre o solo petrificado 
de um caminho de encontros 
cada vez mais raros.

05 julho, 2016

A ilha de mim

É possível lembrar o momento líquido no tempo em que a mira perdeu-se do foco. Quem é esse a atravessar o oceano ao meu redor em profundo mergulho de um fôlego só? Recém-chegado, entrou e pisou com seus pés encharcados no chão e paredes de minha mente, deixando seu rastro relapso no exposto de mim. Quisera eu ser a anfitriã de sempre, indiferente. A verdade é que suas mãos tocaram-me as trancas e trocaram-me os segredos. Não houve escolha possível, já que uma intensa possibilidade tumultuava todos os espaços de mim. Não houve escolha além das consequências. Então, segui não detendo qualquer talento. Sou apenas fina camada de pó sobre a continental mobília do mundo: vem a chuva e me lava; vem o vento e me leva. Sendo assim, não há mira que mantenha o foco. Estabilidade é condição ausente dentro e fora do ser, isenta de qualquer compromisso geológico sobre essa massa estranha que piso e chamo de mundo. Ainda assim, completo a liquidez do oceano ao meu redor, gota a gota, observando-o cada vez mais perto e cheio. A ilha de mim, embebida em marés, que pensei inacessível: loteada e habitada. Ele acende um cigarro e é essa toda luz que posso ver entre a imensidão do céu e mar, fundidos no breu noturno desse azul.

29 junho, 2016

Campo aberto

Em campo aberto
exponho a nudez
de um corpo alheio
Em viagem o vento
sobre o mar avança
Sertão adentro:
encontra-me
despida de alma,
coberta de pele
a versão original de mim
num avesso indiscreto.

28 junho, 2016

Espirais

Subo por escadas, avanço em espirais
Dos pés, uma ponta toca a superfície:
Carimbo orgânico a marcar o meu trajeto

Cada degrau colheu de mim uma impressão

Entrelaçada ao corrimão
meu olhar despenca
e o coração delibera:

O mau dos caminhos planos
é que nunca sabemos bem
se estamos indo, ou se voltamos.

03 abril, 2015

Solúvel


Talvez seja agora possível o que não fora jamais. Talvez as palavras me detenham, enfim. Pois, há tempos fartei-me do contrário. Anoitecer a alma deitada sempre sobre o mesmo lençol listrado. Sim, a dor era real. E fazia doer, sobremaneira, a impossibilidade de variação. Estive cansada do plano e do pano, cansada do fundo e das impressões tão demarcadas, tais como linhas de expressão na face de um coração envelhecido. Que brutal pode ser amanhecer o dia fora do chão! Só quem é de terra saberá a gravidade disso, se importando, inclusive com possíveis trocadilhos a pedir esmolas no canto esquerdo do mundo. A liberdade exerce sua força sobre mim, de uma maneira quase claustrofóbica em ser assim, tão solta! Não há margem para um erro qualquer, um engano sequer. Não, não estamos há espera de um milagre. Senhores, sequer estamos à espera. Não há espera, nem mesmo pelos passos dele. Sim, há ele. Ele há. Moço moreno, de olhar líquido e sorriso quântico. Há de ser sempre um sopro úmido sobre a pele quente do meu corpo. Há de ser sempre uma memória vaga de gestos imprecisos na noite sem lua que o sol desfez de manhã. E todo o caos do universo permanece em sua mais perfeita ordem. Porque não ouso mais tocar o fogo com a ponta dos dedos ou me jogar, qual homem-ao-mar. Não penso em me render. Sou livre demais pra isso. Nem quero render o que já basta. Não me importo se a vida é líquida e meu sentir, em pó. Sou leve demais pra isso. Solúvel demais para tanto.