05 maio, 2017

Minha casa é um templo. 
Eu não sou. 
Eu sou apenas um tempo sem volta, que chega ao fim num dia nublado.

02 maio, 2017

Fecho os olhos e as cores são mais vivas que a realidade.
Vermelho.
Cinza cintilante.
Todos os amores que comigo morreram. Carrego-os em mim, um jazigo de paz e quietude.
Minha letra já não diz mais que minha voz e nada é tão bonito quanto já foi.
Vi todas as memórias suas vivas e mortas ao mesmo tempo, carimbando minha alma ao som da tarde, regadas por minhas lágrimas quentes que encharcaram a pele do meu rosto, tal como o sol daquelas tardes e o luar daqueles breus em que te amava sem saber ao certo o que aquilo seria um dia. Hoje eu sei, porque o tempo passou e escancarou sua fúria sobre mim.
Repouso em paz, agora que sei o que o amor nos fez.

12 julho, 2016

Aurora boreal


Meus olhos cegos 
puseram-me desde cedo 
a tatear nas paredes desse abismo, 
a inscrição outrora feita 
por irrequietas ninfas, 
mantidas em constante espreita 
de um amor que, um dia, 
ousaram a semente semear.

A luz tardia que em maio 
aos meus olhos foi cedida 
precedia a sua: 
a precoce e luminosa aurora boreal 
que diagrama em meu céu 
um único ponto cardeal, 
indicando-me o rumo incerto 
dessa busca indefinida.

Trilho a direção 
que dita a bússola dos meus poros; 
o norte magnético 
em tua presença personificado, 
arrastando meus grilhões 
sobre o solo petrificado 
de um caminho de encontros 
cada vez mais raros.

05 julho, 2016

A ilha de mim

É possível lembrar o momento líquido no tempo em que a mira perdeu-se do foco. Quem é esse a atravessar o oceano ao meu redor em profundo mergulho de um fôlego só? Recém-chegado, entrou e pisou com seus pés encharcados no chão e paredes de minha mente, deixando seu rastro relapso no exposto de mim. Quisera eu ser a anfitriã de sempre, indiferente. A verdade é que suas mãos tocaram-me as trancas e trocaram-me os segredos. Não houve escolha possível, já que uma intensa possibilidade tumultuava todos os espaços de mim. Não houve escolha além das consequências. Então, segui não detendo qualquer talento. Sou apenas fina camada de pó sobre a continental mobília do mundo: vem a chuva e me lava; vem o vento e me leva. Sendo assim, não há mira que mantenha o foco. Estabilidade é condição ausente dentro e fora do ser, isenta de qualquer compromisso geológico sobre essa massa estranha que piso e chamo de mundo. Ainda assim, completo a liquidez do oceano ao meu redor, gota a gota, observando-o cada vez mais perto e cheio. A ilha de mim, embebida em marés, que pensei inacessível: loteada e habitada. Ele acende um cigarro e é essa toda luz que posso ver entre a imensidão do céu e mar, fundidos no breu noturno desse azul.

29 junho, 2016

Campo aberto

Em campo aberto
exponho a nudez
de um corpo alheio
Em viagem o vento
sobre o mar avança
Sertão adentro:
encontra-me
despida de alma,
coberta de pele
a versão original de mim
num avesso indiscreto.