28 maio, 2018

Versos siameses

Traço a reta inútil entre os círculos
Um desenho mais-que-imperfeito
Meu caminho linear entre os ciclos

Traço a linha intermitente do sorriso
O vislumbre de algum defeito
Pois que o céu emerge do abismo

Pois que o mar repousa indeciso
O entoar de um cântico insuspeito
Traço a ilha no horizonte incircunciso

Meu sulco oriundo de qualquer adaga
Um utensílio por mim eleito
Traço o risco que se corre e não apaga.

Aurora boreal

Meus olhos  cegos
puseram-me desde cedo a tatear
Nas  paredes desse abismo
a  inscrição outrora feita
Por irrequietas ninfas
mantidas em constante espreita
De  um amor  que um dia
ousaram a semente semear.
A luz tardia que em março
aos meus olhos foi cedida
Precedia a sua,
a precoce  e luminosa aurora boreal 
Que diagrama  em meu céu
um único  ponto cardeal
Indicando-me o rumo incerto
dessa busca indefinida.
Trilho a direção
que dita a bússola dos meus poros
O norte magnético
em  tua presença  personificado
Arrastando  meus grilhões
sobre o solo  petrificado
De um caminho de  encontros
cada vez  mais raros.

O Mar

O mar, menino, é um silêncio sombrio
Entre as ondas, sua voz não pude ouvir
Na areia não contei sequer um passo seu
As marés não me levaram ao rio que te desaguou

O mar, menino, é um imenso baldio
O sal nos lábios não é o que de tua pele extraí
As inférteis algas não me deram algo teu
Nem a espuma que flutua é a mesma que te banhou

O mar, menino, é um tormento vadio
Há em seu profundo tanta vida presente
Mas, em mergulho, só percebo a tua ausência

O mar, menino, é um leito vazio
É a tua falta que nele repousa, silente
E na superfície irresoluta conduzo tal abstinência.






05 maio, 2017

Minha casa é um templo. 
Eu não sou. 
Eu sou apenas um tempo sem volta, que chega ao fim num dia nublado.

02 maio, 2017

Fecho os olhos e as cores são mais vivas que a realidade.
Vermelho.
Cinza cintilante.
Todos os amores que comigo morreram. Carrego-os em mim, um jazigo de paz e quietude.
Minha letra já não diz mais que minha voz e nada é tão bonito quanto já foi.
Vi todas as memórias suas vivas e mortas ao mesmo tempo, carimbando minha alma ao som da tarde, regadas por minhas lágrimas quentes que encharcaram a pele do meu rosto, tal como o sol daquelas tardes e o luar daqueles breus em que te amava sem saber ao certo o que aquilo seria um dia. Hoje eu sei, porque o tempo passou e escancarou sua fúria sobre mim.
Repouso em paz, agora que sei o que o amor nos fez.