17 janeiro, 2009

Pretensões


Quando tudo deixa de ser tudo, passa a ser nada, ou simplesmente, deixa de ser, pra se tornar, um tudo que jamais seria ou um nada que teria de ser.
Eu sei que me entende, tanto quanto eu e, eu não entendo. Vou colocar pra repetir. Pra repetir o dia de hoje como essa musica que ouço agora. Tenho sorriso em lágrimas, lágrimas escorrem pelo sorriso em mim. É uma combinação inédita, de tudo o que eu seria capaz de sentir.
É uma passagem única, sem volta e sem partida. É só pra estar à espera da viagem, à espera de um destino, não importa qual seja ele, eu espero feliz, feliz o bastante. Apenas hoje.
Ela acabou e acaba de se repetir, a música. Agora eu acabo, acabo de me repetir, em sua voz. Repito que não sei por onde vim, por onde ando e pra onde pretendo ir. Quero estar aqui, estar em mim, ser e sentir tudo de novo. Uma melodia de esperança, talvez fosse de dor. Mas hoje, não!

“What you say?When it's such, it's such a perfect day”

De nada que eu não fiz. É tudo relativo. Digo que seja de tudo o que farei, dos livros que lerei. Das músicas que serão lançadas, das estrelas que ainda serão descobertas, do romper da aurora dos próximos anos, dos carros que serão lançamentos em 2010, das chuvas que cairão, das saudades que sentirei semana que vem, dos poemas que escreverá, dos amores que terá, das horas que dormirá e que estarei pensando em ti. Sim!
Chegará o dia. Um dia, pra definir todos os outros e dar a definição dos dias passados, os dias perdidos, que sejam achados, daqueles em que tanto buscamos a definição. Um dia pra olhar fora de si, um dia pra que se testar a textura da pele, na veracidade da luz ou no obscuro luar noturno.
O dia que poderá ser noite ou nem entardecer, vai depender. Mesmo que não seja, mesmo que deixe de ser ou que continue assim, não deixou de ser o que se foi. Tenho deixado de sonhar, deixado de imaginar o que é perfeitamente imperfeito. Tudo passou a ser e de forma superior. Quero o que não se quer e o que não se deve querer, quero poder querer, apenas.
E hoje é tudo tão “pleno, claro e transbordante” que já nem faz sentido. Tanto quanto não fez enquanto tudo podia ser. Podia, poderia e jamais seria.
Deixa, deixa eu dizer que não quero te dizer mais nada. Não quero mais correr o risco de perder o que eu sinto. Não quero fazer o que sempre quis. Não quero repetir meus versos antigos:

“Expulsei o amor em mim, para enfim torná-lo seu”
Foi o melhor. O melhor de mim é o que tenho de pior, a minha mentira é a minha verdade. A minha vida é o que não vivo e o que vivo é o que é a minha morte. Seja como fôr, eu serei sempre a pessoa vazia, cheia de nada que sorri fingindo existir, lembrando-se da geografia. Mas não me lembre assim, por favor.

Tenho um grande livro. Eu tenho grandes livros, livros pequenos e livros inúteis. Mas tenho um maior, o livro em mim, onde há várias páginas em branco, a maioria delas. Na verdade, há apenas uma página já escrita. Foi onde registrei um amor único no mundo e o meu medo de uma próxima desaparição.
Talvez se pergunte: e o resto?
Ah, o resto...
Não tem resto, não tem sobra. O que sinto precisa de espaço, muito espaço. Deixa que as páginas em branco lhe sirvam de redoma, que o sol possa nascer ao mesmo tempo...Deixe que escolha se haverá escrita, e se houver, o que será escrito nas próximas páginas. E quanto ao final, sinto que está bem distante e, quanto a mim, “não tenho pressa, não vou mesmo a lugar algum”.
E mesmo que fosse, iria: “não sei... por aí... andando sempre para frente”
E “quando a gente anda sempre para frente, não pode mesmo ir longe...”
Aquele que me contou sobre isso tem uma flor e até hoje não se sabe o fim do livro dele, o que se deu entre ele e sua flor...Por que haveria eu de saber a respeito do meu, o que se dará com minha flor?
Tenho outras pretensões, bem menores. Um dia de sol da próxima vez. Ou dormir, apenas.

3 comentários:

Letícia disse...

Você começou em poema, depois foi música e terminou em prosa e dialogando sempre. E o nada já é muito agora.

Bjs, Glaucia.

Esse texto está muito bom.

Flávia disse...

As pequenas pretensões são as que constroem grandes realizações, no fim das contas.

Um beijo:)

Éverton Vidal disse...

Tensões... Pretensões... Um monte de confissões. Tudo com um lirismo invejável, fantástico, muito maduro. tenho que te ler mais. E vou começar a fazer isso agora que voltei das férias blogais.

Um abraço companheira de Bihetes.

Inté!