01 agosto, 2010

Dorme, menino




E toma o café, descompassada. Fora do prumo. Torta na linha. Cadeira que não encosta até o fim. Pedaço de pão seco atrás do armário. Um adjetivo contraposto ao sul. Tenho me virado bem. Muito bem, obrigada. Viro sobre a cama e sob também. Que seja no plural, não faz diferença. Não saberiam jamais decifrar-me sob este sol incandescente. Lua de fel em noite sabática. Alguém reparou na lua? Os seus olhos castanhos embebidos - filtro dos meus pensamentos - mergulhavam numa piscina de mistérios que ninguém ousaria desvendar. Negro seu contorno, úmido seu ato final de olhar-me contraluz. Eu, máquina de calcular, mostrava os dentes graciosamente alternando olhar ao norte.
- Por que está aqui?
E o café cai na toalha, enquanto preparo sua resposta, enquanto fotografo, acrobata, sua face de narciso embriagado. E a noite foi boa. Não fazia frio. Não mais. E ainda sonhei, como se não bastasse todo o resto.
E não há doce que deixe mais amargo meu paladar amanhecido, com gosto de noite envelhecida. Enxergo o dia por trás da parede amarela da minha alma, lençol encardido pela poeira do tempo. Caminho na direção contrária sobre um disco de vinil furado. De cara pintada e Maria-de-trança. Boneca de pano de 1915, cabelo de milho. Fantoche de deus, um vudu e suas perfurações corriqueiras.
- Por que me chamou?
E pouca coisa arde mais que álcool percorrendo as veias. A máquina de lavar desperta novamente para seu trabalho compulsório, eu desperto para a manhã dominical. Dia em que pessoas normais vão à missa. Talvez eu devesse ir à missa algum dia, uma primeira vez. Olhar vitrais enquanto falam em latim. Confessar meu leite derramado. Sobre a toalha, escorregou pelo pé da mesa e lá vai pelo chão. Talvez, "mil padre-nossos e mil ave-Marias" e não ouço mais nada. Só lamber do gato.
Fecho os olhos. Abro. E nada mudou. Ele dorme em minha cama enquanto o sabão faz espuma sobre a água do tanque. Um diabo de auréola, garras e asas. E, 'vai alto no céu o sol da primavera'. No quarto, um terço. Teu corpo de altar e minha reza é sempre a mesma.
- Dorme, menino.

3 comentários:

Letícia disse...

Também preciso confessar meu leite derramado. E já é tanto.

Perfeito, Glaucia.

Letícia disse...

E sou viciada em Radiohead. Esta daí (Reckoner) dói de dor boa. =)

JB disse...

Conheci agora o seu espaço e gostei muito do que li. A sua prosa é uma delícia!
Comum ar leve e fluido levou-me a viajar pela sua história, descobrindo as várias sensações e emoções. Muito bonito!

Voltarei.
Um beijinho