28 abril, 2011

Confronto

Legítimo - não era a palavra. Tentei por tantas vezes encontrar a ponta da memória e, não mais que sutilmente, puxá-la. E a dor daquela fisgada doeria sobremaneira, enquanto você puderia ver-me em performática contorção de corpo e alma. Porém, não pude encontrar sequer algum vestígio de que essa linha emaranhada, de fato, existisse em mim. Sem pontas, apenas nós. Nós entre a carne que é só minha. Nós encharcados do sangue que te prometi provar. Mas, você não soube esperar e, incisivamente, indicou-me o dedo que a isso é servil. Não satisfeito, cavou e cravou-me em sua unha em busca de qualquer solidez dentro de minh'alma líquida. Não fosse o resultado invasivo um derramamento, ficaria eu contente com o desencontro. Um segundo é tempo bastante - tempo com que me levas ao confronto. Não, não tenho plano algum: sou feita de resignação. Sou uma roupa pendurada no varal à espera do temporal. Você acha mesmo que posso dar vida às minhas mangas longas e soltar-me? Ou que cairia ao chão sem sujar-me escandalosamente? Não há ninguém para recolher-me: o temporal é iminente. Além do mais, todos dormem - é o que há de melhor a se fazer enquanto a chuva cai. Então, levanto meus olhos, calibro-os aos seus: asseguro-te que não há nada a ser feito. Cada qual com suas escolhas, apanhemos nossas tralhas de rancor e incredulidade: damos-lhes o destino que melhor nos apreça. O fim é feio: a única verdade que encontrei até aqui. Adoraria, enfim, contestar a realidade e retaliar o universo que jamais deu-se ao trabalho de conspirar. Mas, a verdade é que estamos cansados demais para outro confronto. Deixe-me aqui, suspensa, à mercê do vento. Dê meia volta, não há ninguém em casa: só a roupa no varal.

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