28 maio, 2011

Intimista

Intimidar não vem de íntimo, mas tanto faz e tudo bem. Eu tento acariciar a fome e manter o ego forte em dizer que não, não é íntimo, mas a verdade é que as coisas funcionam melhor ao contrário, sempre. Não compreendo essa necessidade forte de definir os fatos, fatores e fatias desse bolo todo que é a vida. Não vejo ninguém com fome e penso logo em retirar os pratos, não servir. Porém,  são considerações causais, talvez banais sobre isso e o nada em que tudo se transforma ao brilho triste de um sol frio.

Já disse que estou cansado, preciso do meu lugar à mesa da família.(*)

E também não é tristeza, sabe-se lá o que seria se tivéssemos mais adjetivos, mais completos e menos tensos. Parece o sol da verdade, da realidade, do despertar, mas tanto faz. Já não me recordo quase nada e o dia vai sumindo devagar, a sensação é de que vejo a noite puxando o dia sorrateiramente no horizonte sem que ninguém mais perceba. Tenho pouco tempo pra muita pena.

Eu que não sabia que o amor requer vigília: não há paz que não tenha um fim, supremo bem, um termo, nem taça que não tenha um fundo de veneno.(*)

Eu me largaria pelo chão, sem compaixão! E estou cansada de dançar a tantos, quero dançar só, uma música sem melodia, sem letra, sem poesia. Quero compor sozinha minha música vazia, transformar minha dança num sono vadio que se dorme em indiferença ao fim dos dias. Sem nunca crer na mentira dos olhos, que mentem todo o tempo paisagens puras enquanto tudo o que há é deturpação. Tudo desigual e em nada vejo perfeição, porque não uso olhos para tatear a realidade, sou feita da matéria-prima. 


(continua...)



* Trechos de Lavoura Arcaica - Raduan Nassar 

2 comentários:

Fabio Hesse disse...

tenho pouco tempo pra muita pena.

eu tbm!

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

"
‘Quero compor sozinha minha música vazia’
E me permita fazer par contigo desta solidão