13 novembro, 2013

Delitos incontidos


O toque dos teus dedos escorre por meu rosto, desliza tão sutil quanto uma lágrima, enquanto a verdade dos teus olhos acompanha cada movimento, expressando cada sensação num esplêndido improviso. Um maestro aprendiz que descobre notas novas num arranjo involuntário, no esboço de uma composição adulterada que já não será mero rascunho. Basta uma palavra, uma falsa distração para que meus olhos virem palco destes seus. De você vem o sopro leve que em mim se reveste em tempestade, enquanto hesito em devolver o teu olhar para o lugar de onde veio, não sem antes tentar tocar, não sem antes tentar roubar o mel do pertencer. Uma pausa breve é o bastante para que o incômodo da verdade se transforme em sonora calamidade, uma gritante catástrofe que culmina em notas graves, sentimentos tórridos capazes de matar e essencialmente suicidas. E a melodia beira ao fim quando nossos olhos reconhecem em si mesmos a nota triste de uma dúvida, o desfecho efêmero dos delitos incontidos e a dor que arremete ao medo do que seria verdadeiramente a mais bonita sinfonia. Como um último suspiro, como dedos que se esticam a tatear quem já partiu e nada encontram, os teus tentam reverter o destino que agora se desdobra, buscando a lágrima na quase-queda, empurrando-a pele acima, devolvendo-a para o fundo dos olhos que já não sabem se serão meus, ou se serão seus. 



Um comentário:

Paixão disse...

caramba amiga
que inspiração! !!!!

amei!