08 novembro, 2013

Urbano





"She looks like the real thing
She tastes like the real thing"













Tantos são os lugares que agora poderiam me abrigar, pois tantos são os passos que meus pés percorrem diariamente, no aconchego do asfalto ou das calçadas de concreto áspero, algumas vezes cobertas pelo musgo do abandono ou pela tristeza do tempo. Foi só mais um dia que nasceu em chuva enquanto eu buscava uma sarjeta indiferente, onde eu pudesse me sentar à espera da enxurrada que chegaria sorrateira, desenhando seu percurso através dos dejetos da cidade amanhecida, trazidos de tão longe quanto a chuva que desabou em queda livre. E ela já chegou ao chão, vai buscar o seu destino impetuosamente, contrariando o asfalto, o concreto, o musgo e a sarjeta. E ela vem, contra mim e contra o tempo, da mesma forma que se vai. Vai buscar da terra seu abraço, vai forjar um fim e do chão apagar meus passos.
E tantas são as dores que a chuva deixou, em vista das poucas que levou.  Apesar de sua partida, algumas árvores ainda choram, derramam lágrimas incessantes que atravessam os olhos de quem as observam, indiferentes. Choram porque são vivas, choram porque são reais. Tão reais que passam despercebidas aos olhos distraídos de seres artificiais. Tão vivas e capazes de chorar pela dor e pela fome do senhor de bengala que alimenta o cão faminto, pela necessidade da mulher que revira o lixo, pelo cansaço do ciclista uniformizado, pelas dívidas do homem engravatado. Elas choram pela tristeza da mulher que passa calada, pelas doenças das crianças que não podem brincar lá fora. Sentem pena de pessoas como eu, prisioneiras da rotina, reféns de suas escolhas, espectadores de um espetáculo que demorou a começar, mas que agora parece nunca chegar ao fim. 

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