03 abril, 2015

Solúvel


Talvez seja agora possível o que não fora jamais. Talvez as palavras me detenham, enfim. Pois, há tempos fartei-me do contrário. Anoitecer a alma deitada sempre sobre o mesmo lençol listrado. Sim, a dor era real. E fazia doer, sobremaneira, a impossibilidade de variação. Estive cansada do plano e do pano, cansada do fundo e das impressões tão demarcadas, tais como linhas de expressão na face de um coração envelhecido. Que brutal pode ser amanhecer o dia fora do chão! Só quem é de terra saberá a gravidade disso, se importando, inclusive com possíveis trocadilhos a pedir esmolas no canto esquerdo do mundo. A liberdade exerce sua força sobre mim, de uma maneira quase claustrofóbica em ser assim, tão solta! Não há margem para um erro qualquer, um engano sequer. Não, não estamos há espera de um milagre. Senhores, sequer estamos à espera. Não há espera, nem mesmo pelos passos dele. Sim, há ele. Ele há. Moço moreno, de olhar líquido e sorriso quântico. Há de ser sempre um sopro úmido sobre a pele quente do meu corpo. Há de ser sempre uma memória vaga de gestos imprecisos na noite sem lua que o sol desfez de manhã. E todo o caos do universo permanece em sua mais perfeita ordem. Porque não ouso mais tocar o fogo com a ponta dos dedos ou me jogar, qual homem-ao-mar. Não penso em me render. Sou livre demais pra isso. Nem quero render o que já basta. Não me importo se a vida é líquida e meu sentir, em pó. Sou leve demais pra isso. Solúvel demais para tanto. 

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