05 julho, 2016

A ilha de mim

É possível lembrar o momento líquido no tempo em que a mira perdeu-se do foco. Quem é esse a atravessar o oceano ao meu redor em profundo mergulho de um fôlego só? Recém-chegado, entrou e pisou com seus pés encharcados no chão e paredes de minha mente, deixando seu rastro relapso no exposto de mim. Quisera eu ser a anfitriã de sempre, indiferente. A verdade é que suas mãos tocaram-me as trancas e trocaram-me os segredos. Não houve escolha possível, já que uma intensa possibilidade tumultuava todos os espaços de mim. Não houve escolha além das consequências. Então, segui não detendo qualquer talento. Sou apenas fina camada de pó sobre a continental mobília do mundo: vem a chuva e me lava; vem o vento e me leva. Sendo assim, não há mira que mantenha o foco. Estabilidade é condição ausente dentro e fora do ser, isenta de qualquer compromisso geológico sobre essa massa estranha que piso e chamo de mundo. Ainda assim, completo a liquidez do oceano ao meu redor, gota a gota, observando-o cada vez mais perto e cheio. A ilha de mim, embebida em marés, que pensei inacessível: loteada e habitada. Ele acende um cigarro e é essa toda luz que posso ver entre a imensidão do céu e mar, fundidos no breu noturno desse azul.

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